Impotência

Dos problemas de saúde enfrentados por minha filha, as crises de ausência estão entre os mais perversos. Ela não se mexe. Não ouve meu chamado. Não reage a qualquer estímulo. Fica ali, durante angustiantes minutos, instintos e respostas congelados, absolutamente inacessível. É como se eu a perdesse em vida. Como se ela se perdesse de si mesma. Tudo fica suspenso, monocromático, estático.

O que mais me aflige é que, naquele momento, ela perde sua capacidade de encantamento. Ponho-me a pensar quantos curtos-circuitos tiveram lugar em sua cabecinha naquele instante. Quanta beleza deixou de tocá-la pela barreira invisível da convulsão. Quantas surpresas ela não se permitiu naquele apagão. Quanto tempo de vida este breve colapso lhe abreviou.

Amparo seu corpo sem forma em meus braços, na expectativa de que a familiaridade de nosso vínculo possa resgatá-la deste túnel de esquecimento. Ela recobra seus sentidos como se nada tivesse acontecido, eu recupero o fôlego.


Para além do susto, o que fica é o desejo profundo de que a vida que ela espreita nessas janelas que se abrem tenha significado e beleza capazes de fazer seu encantamento ser maior do que sua pena.

Anúncios
Esse post foi publicado em Sem categoria e marcado , , , , , , , , , , , , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s