O corpo, um eterno rascunho

Observo as pessoas – crianças e adultos – dedicando-se à superação dos próprios limites. Uma constatação me preenche: a paralisia cerebral é condição que, paradoxalmente, induz o movimento. Sentidos, funções, percepções, nada está paralisado. O cérebro que sofre esta condição se remodela o tempo todo, reformula conexões e caminhos a partir das experiências e necessidades do sujeito, naquilo que se convencionou chamar de plasticidade.
Aquele que tem paralisia cerebral desafia a si mesmo à permanente transformação, transpondo sequelas e subvertendo convenções. O improvável não é impossível, embora o possível também não seja certo. Na vontade e no desejo, o corpo é ensaio de uma invenção que nunca acaba.
O processo se estende a quem cuida de uma criança ou adulto com paralisia cerebral. Ao buscar dar novos usos a velhos objetos, misturar cores, texturas, sons e sabores em combinações ainda não experimentadas, o cuidador também inventa, adapta, modela anteparos para apoiar as tentativas do corpo de quem é cuidado.
Na comunhão desta interação, quem cuida e quem é cuidado tem a oportunidade de se renovar e se reinventar na contramão da estagnação sugerida pela paralisia. Descobrem juntos as inúmeras possibilidades de realização diante da vida, quando se leva a sério a concreta noção da incompletude.

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