Um convite atemporal

Era uma festa de criança. Havia cores e sons salpicados por todo lado. Quando se formou a roda das brincadeiras, a meninada dançava radiante. Alice e eu resolvemos, então, nos juntar ao grupo. Amparando seu tronco em minhas pernas, seus braços em minhas mãos, seu querer no meu, entregamo-nos também às batidas das canções e do alvoroço. De pé – à nossa maneira-, o sorriso de minha pequena distribuía senha para o regozijo despretensioso de quem lhe pudesse notar. Quando o bastante nos dobrou as pernas, voltamos a nos sentar, enquanto sentíamos a satisfação escorrer úmida e quente em nossas faces.

Não durou um minuto até que fosse surpreendida por uma abordagem que propunha que eu buscasse um local, em cidade vizinha, para que Alice fosse curada. Lá, ela dizia, há solução para toda doença, há quem tenha chegado em cadeira de rodas e saído andando. Senti tristeza. Não foi raiva, não. Nem indignação. Foi tristeza mesmo. Só. Olhei fundo nos olhos de minha interlocutora e pude alcançar o bem querer da proposta, embaçado pelas palavras mal escolhidas. Senti que ela não nos tivesse visto naquela roda de brincadeiras. Não tivesse feito conta de nossa alegria escancarada, de nossa satisfação exposta a olho nu. Nós escapamos ao seu olhar. O que ela viu foi a si mesma, incomodada pela diferença que, destemida e naturalmente, se apresentava ali, entre crianças e brincares. Perceber as diferenças pode ser um estorvo, compreendi a partir de sua atitude. Ela apenas pressupôs sofrimento e antecipou alternativas, enquanto se via refletida no espelho.

A cena, com pequenas variações, se repetiu em outras ocasiões ao longo deste ano. Tanto mais Alice e eu nos expusemos nos parques, nas praças, nas festas, na escola, nas ruas, tanto mais sugestões nos foram entregues a essa coleção de ideias para viver sem paralisia. A despeito disso… diacho, como fomos felizes! Ingenuamente felizes! Corajosamente felizes! Não que tenha sido fácil. Não foi. Houve luta, houve cansaço, houve medo, houve dissabores, como toda peleja humana. Mas, no cômputo final da planilha de conquistas e sentimentos, nos soubemos imperfeitas, inacabadas e, por isso mesmo, só por isso… felizes em nossa existência.

Seguras de nossa condição, podemos revisitar cada uma dessas situações de confronto com as diferenças, cada uma dessas pessoas que nos percebeu atravessadas. Revisitá-las para convidá-las a anfitrionar outro olhar, desses próprios de promessa de ano novo, de vir a ser. Quem sabe esse ímpeto de nos propor uma intervenção para curar aquilo que não é doença, essa intenção de nos provocar a superar aquilo que não nos incomoda, essa inclinação para compreender as pessoas a partir de normas e padrões… quem sabe essa energia pudesse ser direcionada para transformações profundas no coletivo em que vivemos? Para consagrar o mundo como habitat privilegiado da diversidade humana? Quem sabe? Quem sabe a proposta possa ser direcionada às escolas, para que amadureçam suas políticas de inclusão? Quem sabe a sugestão venha a recair sobre o município, para que garanta a acessibilidade nos diversos espaços públicos? Quem sabe a alternativa venha a ser oferecida às empresas, para que revisem suas estratégias e percebam a diversidade como diferencial competitivo? Quem sabe essas perguntas, junto a tantas outras, nos motivem para uma poderosa reforma? Com o antisséptico da empatia, podemos esterilizar todos os cantos – internos e externos – em que a ignorância, o preconceito e a intolerância ainda encontram morada. Podemos acolher as diferenças em lugar de cogitar consertá-las ou exterminá-las, Assim, de fato e definitivamente, todos podemos fazer o ano novo e renovada a vida.

imagem diario

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O antônimo da impotência

Observo as ondas cerebrais da pequena Alice se emaranharem na tela do computador. Antevejo a desordem, o caos, o inexorável laudo subscrito. Esse é o cérebro dela: terreno instável, calçada de abismos e absurdos. Por isso, expressa-se em tantas rotas confusas, em desvios, retenções e engarrafamentos. Não há como mudar essa realidade.

O exame de imagem, em somatório, revela a luxação de quadril. Alice não fica de pé e os ossos se ressentem disso. A urgência da cirurgia ortopédica é anunciada. Não há como mudar essa realidade. Esse é o corpo dela.

O que pode, então, essa mãe diante de situações potencialmente dolorosas para sua filha? O que posso eu?

Ah… posso me reconciliar com os limites, os dela e os meus. Posso subscrever nossas vidas na fragilidade, na vulnerabilidade, no inacabado e em todo o cuidado que essa compreensão encerra. Posso escolher o antônimo da impotência: o amor. Posso amar, sempre e mais, essa filha. Amar seu cérebro inquieto. Amar seu corpo imperfeito. Amar também a mim, inquieta e imperfeita, minhas dúvidas, meus medos, meu aprendizado. Posso amar esse êxodo permanente em que vivemos, eu e ela, entre o que sabíamos de nós e o que viremos a ser. Posso amar, amar e amar, de tal sorte que seja qual for o tombo, o escorregão, o machucado, haverá esse macio do afeto para nos recompor. Posso amar como estratégia de luta. Posso tão pouco, mas posso tanto!

De tanto amar, celebro a maneira como minha filha vai fazendo de suas limitações uma singela moldura de tudo o que ela é e virá a ser.

É assim, só assim, que transformamos a nossa realidade. De tanto amor.

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Quem ensina a inclusão?

Haveria uma colega com deficiência na mesma sala que Bianca, sua filha, na escola. Diante de tal informação, a mãe ponderou se deveria conversar com a menina sobre o assunto. Seria necessária alguma preparação ou intervenção? Intuitivamente, decidiu recuar e aguardar.

Primeiro dia de aula, esperou ansiosa pela chegada da filha em casa. Então, perguntou:

– Como foi o primeiro dia?

Ao que a menina respondeu:

– Foi ótimo, mamãe! Já tenho duas melhores amigas, a Júlia e a Alice.

Estávamos dispensadas, as mães de Bianca e de Alice, de qualquer redundante mediação.

De lá pra cá, quase um ano transcorrido, esse círculo de amizade se ampliou e se fortaleceu. Trocaram carinhos, construíram maneiras muito próprias de se relacionarem, plantaram mudas de flores uma ao lado da outra no jardim. Quando Alice adoeceu, teve mensagem de apoio da Bibi. Quando Bibi aniversariou, Alice estreou a festa com a alegria singular de festejar a amiga de que tanto gosta. Todos os dias tiveram o cuidado de uma com a outra. Sem obrigações nem julgamentos. Só quereres e descobertas. Uma relação tão simples e tão poderosa que aproximou também as respectivas famílias.

Recentemente, a boneca da Bibi teve as pernas quebradas. Ao invés de ir para o lixo, o pai e a mãe, sensíveis e acolhedores, fizeram uma cadeira de rodas para ela. Elsa agora está bem acomodada, e segue fazendo parte das brincadeiras.

Foi assim que chegamos ao final do ano letivo: com a confirmação de que também Alice e Bibi seguirão juntas em 2018.

Let it go!

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Ouça-me bem, doutor

Entramos no consultório, eu e Alice. O médico percorre uma lista de perguntas cujas respostas já sei de cor. Digita tudo olhando mais para a tela do computador do que para nós. Decide, então, fazer o exame clínico.

Alice dá uma chave de braço no estetoscópio que lhe encosta o peito e sorri, faceira, convidando-o à brincadeira. O doutor apenas afasta seu braço e segue o exame. Não a chama pelo nome, não pede licença, não explica o que faz. Minha pequena insiste na doçura, e a cada vez que o aparelho de pressão lhe aperta o braço, ela espalha o olhar curioso e ri de um lado só. Mas medicina é coisa muito séria, e ele continua mais atento ao equipamento que à paciente. Então, dá seu veredito e emenda:

– A prematuridade tem disso, né! Alguns bebês dão muito certo, são um sucesso! Evoluem bem. Outros, como a sua filha, ficam com esses problemas, essas sequelas, e tem que pelejar a vida inteira.

Emudeci por entender que aquela era a afirmativa dele, não a minha. Até então, a consulta não se mostrara espaço para diálogo. Talvez surpreso com a ausência de qualquer comentário, ele me encara nos olhos pela primeira vez naqueles vinte minutos, abaixa os óculos até a ponta do nariz, e questiona:

– A senhora não acha?

– Doutor, sucesso, pra mim, é ela ter sobrevivido. Sobre as limitações, todos nós lidamos com elas a vida inteira, não é mesmo? Para nós, isso não é uma questão, é parte de quem somos.

Silêncio.

Ele abaixa a cabeça, caminha até o computador e volta a escrever. Digita mais devagar, como se quisesse se lembrar das teclas. Repara-nos, finalmente, e inaugura o sorriso.

Nada mais foi dito.

Há mais necessidade de diálogo entre médico e paciente do que sonha nossa vã filosofia.

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Não sei se vocês se assustam quando veem aquela história de “recebidos” nos blogs. A pessoa que mantém a página costuma mostrar o que recebe daqui e dali, desta ou daquela marca. Eu me espanto com o volume de sacolas e de produtos! Sobretudo, com a banalização daquilo que de mais precioso podemos obter da troca cotidiana, do encontro com cada pessoa, com cada história, do tempo dedicado dos dois lados da tela. É clichê, mas tem sido cada vez mais necessário dizer o óbvio: aquilo que nos toca, que nos encanta, que nos comove não tem preço.
 
Muitas vezes, dou uma espiada no perfil das pessoas que comentam os textos que escrevo aqui. Curiosidade e interesse de saber um pouquinho que seja do que pensa e do que sente quem escreve, comenta, curte, compartilha, alimenta este Diário. É sempre surpreendente e alegre esse “encontro” virtual. Sem que saibamos disso, convivem aqui nesse espaço pessoas de diversas (e antagônicas) convicções políticas, religiosas, ideológicas e condições socioeconômicas. A diversidade, aqui, dialoga a muros baixos sobre afeto, empatia, respeito.
 
Como se isso não fosse rico o bastante, recebo di-a-ria-men-te presentes de toda ordem:
 
– Informações sobre medicações e práticas terapêuticas em geral no Brasil e em outros países;
– Indicação de profissionais diversos;
– Sessões de Reiki presencial e a distância;
– “Alice no país das maravilhas” em variados idiomas – uma coleção linda que fazemos!
– Livros de autores diversos, todos muito significativos;
– Saco de café colhido e moído no interior de Minas;
– Caixa de bombons vinda pelos correios;
– Abraços apertados e encontros inesperados;
– Cartas!!!
– Fotos de crianças lindas e muito amadas dos quatro cantos desse Brasil;
– Laços para os cabelos da pequena Alice;
– Fragmentos de vida em relatos preciosos do dia a dia;
– convites para passeios de skate, de charrete, no parque, na praça, no café, no quintal;
– Bolo feito em casa;
– Origamis!!!
– Solidariedade, incentivo, apoio, carinho em porções muito, mas muito generosas!
 
Há, ainda, as amizades feitas, refeitas e reafirmadas por aqui. Admiráveis, sensíveis e disponíveis, essas pessoas alicerçam nossa travessia. E é só isso que não está à venda que me interessa. Tudo isso.
 
De quebra, vamos juntos aprendendo sobre diversidade e construindo um outro mundo possível. Como diria o poeta Leminski, distraídos, venceremos.
 
Obrigada!
dma
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É como ir à Meca

[ É como ir à Meca ]

Há momentos em que a coisa aperta. Feito pé que tenta entrar em sapato que não serve mais. Dias atrás, a madrugada nos encontrou assim, com respiração aflita, coração em desalinho, anfitriando visita indesejada. Tanto tempo sem que fôssemos sacudidas por uma convulsão, ela retornou sorrateira, dando o bote na noite tranquila. Os minutos que registram a impotência de uma mãe diante do sofrimento de sua filha desafiam o cronos. Meus ombros são duas pedras, a suportar o açoite de cada espasmo. Porque a convulsão é feito aquele sapato pequeno, que não nos serve mais… As horas seguintes se esparramam em desassossego e vigília. Minha pequena permanece enrijecida, a musculatura ressentida… Dedico todo meu repertório à tentativa de relaxá-la, reconciliar seu sono, restabelecer a confiança. Colo, água, massagem, colo, comida, música, colo, banho morno, meia-luz, colo… e uma pomada anestésica para as gengivas inchadas.

Meus olhos parecem curtidos em maresia, a cabeça vagueia entre o ocorrido e o depois. Com Alice nos braços, jogo o corpo suavemente de um lado para o outro, como o balanço da praça de domingo. Ela ainda repuxa pernas e braços, desconfiada. Repasso as situações que podem ter desencadeado aquele curto-circuito, afasto a culpa por algo que possa ter sido negligenciado. Resgato, mentalmente, os compromissos do dia, as reuniões de trabalho, e duvido de mim. Considero a exaustão. É quando sinto o corpo de minha filha pesar. A cabeça selada em meu peito, as pernas e braços finalmente entregues ao balanço do corpo, os olhos fechados, o semblante de paz. Esse instante cura, restaura, revigora, empodera. Esse instante, um pedacinho de céu. Resgatamos nosso caminho.

Em meio às tantas obrigações rotineiras que nos envolvem – usar os tutores, ficar de pé repetidas vezes ao longo do dia, usar luvas para adequação das mãos, tapar um dos olhos para estimular o outro, usar os óculos para enxergar de perto -, sublimam-se todas as exigências em um único objetivo: chegar ao final do dia. E passamos a negociar a permuta de cada obrigação com um colo e uma xícara de café, quentes. Está explicitada a urgência. Todo o resto pode esperar.

Sobre essas urgências, meu pai entende muito bem. Anuncia sua entrada com um assobio displicente, dirimindo os graves que tomavam o ambiente. No caminho para meu trabalho, trajeto que fazemos juntos uma vez por semana, ameaço uma queixa qualquer em torno do ocorrido, um lamento. Ele acolhe, pragmático, certeiro e amoroso, lembrando com entusiasmo um ditado árabe com livre analogia de sua parte:

Minha filha, a vida é como ir à Meca. Quem diz que é fácil blasfema. Quem diz que é difícil blasfema.

Era só o que eu precisava para retomar o prumo e seguir em frente.

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Convite ao silêncio

Experimentemos silenciar.

Quando conseguirmos realizar algo pela primeira vez, silenciemos.

Quando recebermos a notícia tão esperada. Quando nos doer a pisada no pé. Quando sentirmos fome. Silenciemos. Quando nos arrancarem algo precioso. Quando quisermos pedir ajuda. Quando quisermos negociar um prazo ou um cafuné. Silenciemos.

Quando houver proibição. Quando excederem a permissão. Quando adiarem o esperado. Experimentemos silenciar.

Se o cotidiano coloca o desafio em pauta, experimentemos dispensar o acabamento polido das palavras, a verborragia sem intenção, a narrativa calculada, a fala ensaiada. Experimentemos conter esse véu da pressa que veste as situações de significado. Silenciemos. Um instante só. Silenciemos.

Talvez a renúncia à distração da narrativa nos convide a um mergulho profundo no momento que antecede a palavra. Naquele átimo de segundo, penetremos o visceral, o sentimento. Indizível. Mudos, experimentemos o caldeirão de sensações que precede qualquer narrativa. Sejamos capazes de nos demorar ali, até que as emoções nos sejam mais do que conhecidas, íntimas.

Reconciliemos sentir e agir. Só então experimentemos, de novo e de novo e de novo, expressarmo-nos de forma genuína. Simples. O corpo tomado pela consciência do sentimento que nos move. Provavelmente, ele já terá se antecipado às palavras. Já terá movido sobrancelhas, alterado a respiração, corado bochechas, fisgado lábios, cutucado as mãos. O essencial já estará dito, pois.

É a alforria do supérfluo. As palavras – quer sejam redundantes, afirmativas ou esclarecedoras – terão a nobre missão de preservar espontaneidade e conexão.

Porque esta não é uma exaltação à abnegação ou à renúncia de posicionamento. Ao contrário, é um aprendizado singelo de uma jornalista que descobriu com sua filha como dispensar palavras para acordar a empatia. É uma ode ao silêncio que não é falta, é verbo.

silencio

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