É como ir à Meca

[ É como ir à Meca ]

Há momentos em que a coisa aperta. Feito pé que tenta entrar em sapato que não serve mais. Dias atrás, a madrugada nos encontrou assim, com respiração aflita, coração em desalinho, anfitriando visita indesejada. Tanto tempo sem que fôssemos sacudidas por uma convulsão, ela retornou sorrateira, dando o bote na noite tranquila. Os minutos que registram a impotência de uma mãe diante do sofrimento de sua filha desafiam o cronos. Meus ombros são duas pedras, a suportar o açoite de cada espasmo. Porque a convulsão é feito aquele sapato pequeno, que não nos serve mais… As horas seguintes se esparramam em desassossego e vigília. Minha pequena permanece enrijecida, a musculatura ressentida… Dedico todo meu repertório à tentativa de relaxá-la, reconciliar seu sono, restabelecer a confiança. Colo, água, massagem, colo, comida, música, colo, banho morno, meia-luz, colo… e uma pomada anestésica para as gengivas inchadas.

Meus olhos parecem curtidos em maresia, a cabeça vagueia entre o ocorrido e o depois. Com Alice nos braços, jogo o corpo suavemente de um lado para o outro, como o balanço da praça de domingo. Ela ainda repuxa pernas e braços, desconfiada. Repasso as situações que podem ter desencadeado aquele curto-circuito, afasto a culpa por algo que possa ter sido negligenciado. Resgato, mentalmente, os compromissos do dia, as reuniões de trabalho, e duvido de mim. Considero a exaustão. É quando sinto o corpo de minha filha pesar. A cabeça selada em meu peito, as pernas e braços finalmente entregues ao balanço do corpo, os olhos fechados, o semblante de paz. Esse instante cura, restaura, revigora, empodera. Esse instante, um pedacinho de céu. Resgatamos nosso caminho.

Em meio às tantas obrigações rotineiras que nos envolvem – usar os tutores, ficar de pé repetidas vezes ao longo do dia, usar luvas para adequação das mãos, tapar um dos olhos para estimular o outro, usar os óculos para enxergar de perto -, sublimam-se todas as exigências em um único objetivo: chegar ao final do dia. E passamos a negociar a permuta de cada obrigação com um colo e uma xícara de café, quentes. Está explicitada a urgência. Todo o resto pode esperar.

Sobre essas urgências, meu pai entende muito bem. Anuncia sua entrada com um assobio displicente, dirimindo os graves que tomavam o ambiente. No caminho para meu trabalho, trajeto que fazemos juntos uma vez por semana, ameaço uma queixa qualquer em torno do ocorrido, um lamento. Ele acolhe, pragmático, certeiro e amoroso, lembrando com entusiasmo um ditado árabe com livre analogia de sua parte:

Minha filha, a vida é como ir à Meca. Quem diz que é fácil blasfema. Quem diz que é difícil blasfema.

Era só o que eu precisava para retomar o prumo e seguir em frente.

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Convite ao silêncio

Experimentemos silenciar.

Quando conseguirmos realizar algo pela primeira vez, silenciemos.

Quando recebermos a notícia tão esperada. Quando nos doer a pisada no pé. Quando sentirmos fome. Silenciemos. Quando nos arrancarem algo precioso. Quando quisermos pedir ajuda. Quando quisermos negociar um prazo ou um cafuné. Silenciemos.

Quando houver proibição. Quando excederem a permissão. Quando adiarem o esperado. Experimentemos silenciar.

Se o cotidiano coloca o desafio em pauta, experimentemos dispensar o acabamento polido das palavras, a verborragia sem intenção, a narrativa calculada, a fala ensaiada. Experimentemos conter esse véu da pressa que veste as situações de significado. Silenciemos. Um instante só. Silenciemos.

Talvez a renúncia à distração da narrativa nos convide a um mergulho profundo no momento que antecede a palavra. Naquele átimo de segundo, penetremos o visceral, o sentimento. Indizível. Mudos, experimentemos o caldeirão de sensações que precede qualquer narrativa. Sejamos capazes de nos demorar ali, até que as emoções nos sejam mais do que conhecidas, íntimas.

Reconciliemos sentir e agir. Só então experimentemos, de novo e de novo e de novo, expressarmo-nos de forma genuína. Simples. O corpo tomado pela consciência do sentimento que nos move. Provavelmente, ele já terá se antecipado às palavras. Já terá movido sobrancelhas, alterado a respiração, corado bochechas, fisgado lábios, cutucado as mãos. O essencial já estará dito, pois.

É a alforria do supérfluo. As palavras – quer sejam redundantes, afirmativas ou esclarecedoras – terão a nobre missão de preservar espontaneidade e conexão.

Porque esta não é uma exaltação à abnegação ou à renúncia de posicionamento. Ao contrário, é um aprendizado singelo de uma jornalista que descobriu com sua filha como dispensar palavras para acordar a empatia. É uma ode ao silêncio que não é falta, é verbo.

silencio

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O batismo da liberdade

Quatro anos se passaram até que Alice fizesse do choro sua ferramenta de reivindicação. Como todas as grandes conquistas, esta também chegou de mansinho, sem alarde, no rascunho do cotidiano. Quer sair da cadeirinha do carro e trazer a mãe para perto: choro. Não quer ir embora da praça: choro. Está com sono, mas quer dormir no colo e com a luz acesa: choro. Fez cocô e quer que troque a fralda: choro.

Até que eu pudesse compreender a assunção do choro ao rol das exigências e pretensões, gastei algumas horas investigando possíveis dores. Indagava minha filha, listando um a um os desconfortos mais frequentes, a fim de que ela sinalizasse o que lhe afligia. Meu coração pulava miúdo diante da possibilidade de algum incômodo que eu não conseguisse decifrar. Tanta história nesses quatro anos a nos desafiar…

Minha pequena passou seus cinco primeiros meses de vida em uma UTI Neonatal resignada, sem verter uma lágrima. O primeiro choro, ainda tímido, se manifestou aos oito meses, para anunciar o nascimento de um dente. Depois, salpicou um fato aqui outro acolá, tão poucos que posso citar um a um. Houve situações de choro adoecido, aquele que se apresentava todos os dias às seis da tarde, impreterivelmente, e durava horas. Vivemos meses assim. Ou, ainda, o choro da abstinência de medicação, que era desassossego para mãe e filha. Mas esse choro de agora… esse é diferente.

Passei a reparar a entonação, a intensidade, as expressões faciais. Senti-me hipnotizada com a diversificação de seu repertório. Era um lamento sentido, íntimo. Não era um anúncio retumbante, desses que paralisam a ação. Era uma queixa melodiosa, que mobilizava ternura para junto da pequena Alice. Não é risco iminente, é escolha, revelava-me. A mais rasa resposta na direção de sua demanda era suficiente para desanuviar o rosto e esboçar um sorriso. Ah, esse choro de filha que anuncia identidade, preferência, tantos quereres em relação à vida… esse choro me comove!

Arrisco-me a pensar que é um choro afirmativo que amadureceu nas convicções que ela construiu para si mesma. Confiança de que ela é bem quista. Confiança de que o mundo é lugar para o exercício de suas escolhas, que devem ser respeitadas. Confiança de que não é preciso palavra para ser ouvida. O pranto, desse modo, é a forma que ela elegeu para estar menos suscetível às resoluções alheias. Ela sabe que não é possível fazer vista grossa, deixar para depois, ignorar seu choro. Ele nos mobiliza para a urgência dos fatos. Seu incontestável crivo veio garantir que nada seja feito por ela sem que ela seja considerada. Que nada lhe limite. O choro de minha filha veio batizar o exercício inadiável de sua liberdade.

E eu sou só sorrisos.

alice

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De volta ao começo 

Uma consulta para viabilizar um exame nos levou de volta ao começo. Retornamos ao lugar onde Alice passou os primeiros 145 dias de sua vida. Tudo em volta era tão familiar quanto perturbador. Os olhares baixos das mães na fila para a visita aos filhos, o pequeno relógio na parede que marca um tempo que nunca chega, o cheiro do sabonete que impregna as mãos. Tudo parece intocado, idêntico. Mas nós não. Nós já somos outras. A respiração serena da minha menina ali ao lado, sem qualquer esforço, o corpo comprido, rosado e o sorriso fácil não deixam dúvida disso. Revivi tudo o que ali teve lugar em alguns minutos. De frente para a porta da UTI Neonatal, foi inevitável lembrar do primeiro colo, ela ainda tão miúda, pouco mais de um quilo, e toda a parafernália que a mantinha respirando. Dias depois, a vida viria a parar por intermináveis 26 minutos. E hoje, ali estávamos, para confirmar que as promessas que nos fizemos uma à outra, naquilo que seria uma despedida, sobreviveram. Quatro anos nos separam dessas memórias, e só uma coisa permanece: o colo. Ainda assim, seguimos nos surpreendendo: hoje foi minha pequena quem, voluntariosamente, resmungou para mobilizar o meu colo. Reclamou. Pela primeira vez. O meu colo. Hoje. Ganhei o maior prêmio que se pode ter na vida: um amor que vive de primeiras vezes.

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As passageiras

Todos os dias, levo Alice para a escola utilizando os serviços de táxi. Acomodamo-nos com a mochila dela e a minha bolsa, ajeito-a em meu colo ou assentada bem ao lado, e vamos. O trajeto é curtíssimo, mas, invariavelmente, rende conversa com o motorista. 
Alguns comentários e observações se repetem. Preocupam-se com o ar das janelas ou o ar condicionado por haver uma criança no carro. Abrem espaço para nos instalarmos melhor. Às vezes seguram mochila e bolsa, às vezes a porta. Outro dia, um senhor divertido disse que só não nos levaria dentro da sala de aula porque não seria permitido entrar com o carro. Inúmeras vezes, expressam com espanto a maneira como percebem as duas passageiras. A senhora é uma guerreira! Deus abençoe a luta da senhora. Todo dia a senhora faz isso, igualzinho… Coitada! Deve ser perigoso ela ficar na escola. Ela aprende alguma coisa? A escola deve passar aperto com ela aí…
As interpretações verbalizadas dizem mais sobre eles do que sobre mim e Alice. O senso comum quer fazer crer que ali vai uma mãe – pobre coitada – levando a filha deficiente para a escola. E que, por supostamente cumprir tal pena resignada, eu mereceria reconhecimento. O que mais chama a atenção na ignorância é o fato de se manifestar em afirmativas, raramente em perguntas. Eles sabem sobre nós, não importa o que tenhamos a dizer. Arrisco contar nos dedos de uma mão as ocasiões em que fui percebida como realmente sou: uma mãe feliz por levar a filha à escola. Tanto mais inferências equivocadas são feitas a nosso respeito, mais saúdo as escolas que sabem acolher as crianças em suas especificidades e necessidades. Mais alegro-me por Alice viver em um tempo em que esse direito lhe deve ser assegurado. Mais esperança tenho no mundo em que as escolas são o lugar dessa aprendizagem que nos faz tão humanos! Só assim, pela educação, autorizo-me a antever outro futuro possível. 
Há uns quinze dias, o motorista que nos levou ao sabido destino mostrou encantamento pela escola. Comentou sobre as árvores, sobre os sons dos passarinhos, do galo, sobre o frescor da manhã, sobre a liberdade das crianças no brincar. Queria ter podido estudar numa escola assim, ele me disse, com os olhos brilhando. Parece que se sentiu acolhido e, assim, sua experiência e a nossa, que suponho serem bastante distintas, encontraram-se no ponto comum do acolhimento. Acenamos com um sorriso. Ele, ao que poderia ter sido; eu, ao que é e ao que poderá ser. 
Próxima viagem. O motorista rapidamente conta que atendeu, durante seis anos, uma senhora cadeirante. Lembra que realizavam muitas atividades juntos, das mais triviais às mais inusitadas. Colocou na conta desta convivência salas de espera de médicos, viagem para a praia, visita às amigas, primeira ópera no teatro. Também puxou da memória o dia em que consolou o choro da dona, discretamente, no carro, e quando a esperou, por mais de uma hora, a observar uma planta num jardim. Naquele dia, ele conta, pensei que só mesmo se eu estivesse numa cadeira de rodas para ter tempo de ficar reparando uma planta qualquer. Depois entendi a minha bobagem. Aquela senhora só tinha um jeito diferente do meu de perceber as coisas. Achei até bonito esse jeito dela, com o passar do tempo, ele testemunhou. Conviveram através dos anos, equilibrando o distanciamento que sua função lhe impunha, e a proximidade que os cuidados com a idosa requeria. Percebendo sua dedicação, certa vez ofereceram-lhe outro emprego, salário maior. Ele recusou, justificando que já tinha se apalavrado com a senhora. E assim foi até ela falecer.
Próxima viagem. O aplicativo me antecipa que o motorista é surdo. Entramos no carro e ele vira o corpo todo para trás para esclarecer as limitações com a audição. Ao fazê-lo, os olhos se demoram em ternura sobre minha pequena. Estava tudo compreendido. Iniciamos a viagem. No trajeto, ele checa o retrovisor repetidamente, certificando-se de nossa segurança e conforto, enquanto Alice busca, com interesse, o movimento pela janela. Ele e ela tem os olhos mais expressivos que já vi. Ela olha para fora, ele, para dentro. Vou gesticulando e incrementando minha comunicação para dar a direção necessária. Ele responde confiante e entusiasmado. Minutos depois, chegamos ao nosso destino. Ele desce do carro, abre a porta para nós, ajuda com a mochila, confere, arruma, abre caminho. Nenhum comentário sobre suas passageiras, nenhuma expressão de piedade em seu rosto. Agradeço a corrida que parece ter partido do endereço da gentileza. Tão simples…
Ao sair, percebo que ele ainda está lá, a observar a escola em minúcia. Não ouviu os passarinhos, nem o galo, nem o tilintar das folhas das árvores, nem a algazarra das crianças. Viu a escola de outra perspectiva e, generosamente, compartilhou-a comigo num pedaço de papel. Estão ali, arrematados, todos os comentários e conversas vividos no trajeto que nos leva à escola.


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A mãe possível

Foi no aeroporto. Enquanto caminhava em direção ao portão de embarque, observava as pessoas, seus gestos, suas escolhas, suas esperas. Eram pernas, luzes e avisos. Muita pressa em um sábado de manhã. Até que meus olhos pousaram em uma mulher. Uma bela mulher envolta em um tecido colorido e, entre camadas de pele e pano, estava uma bebê – sua filha. Nas costas, uma mochila discreta, pequena. Ela balançava o corpo de um lado para o outro. Percebi a filha colada em seu peito, sugando leite, enquanto ouvia a mãe solfejar alguns versos. Parecia tranquilo e seguro aquele ninho. Era segura e poderosa aquela mãe. Viajavam apenas ela, a filha e a mochila. Havia muito a envolvê-las – conforto, afeto, serenidade, algum cansaço, liberdade, satisfação, alegria, coragem… e havia tão pouca bagagem!

A cena ficou assim, tatuada em minhas retinas nas horas seguintes. De princípio, admirei profundamente o que vi. A beleza deu nome à situação. Depois, reconheci-me tomada de assombro. Refiz a cena, modificando as protagonistas. Fôssemos eu e Alice, constatei, o contexto seria radicalmente distinto. Estaríamos com uma bala de oxigênio, uma caixa térmica com toda a alimentação decorrente da dieta cetogênica previamente preparada, pesada e embalada, inclusive alguns itens extras para o caso de alguma eventualidade, garrafas com água espessada, o copo específico para a bebida, os medicamentos anti-convulsivantes, o saturímetro. Minha mochila não seria pequena, tampouco discreta. Minha filha não seria alimentada em meu peito. Ao contrário, haveria inúmeras intermediações para fazê-la nutrida, segura e saudável durante aquele vôo.

As experiências distintas da maternidade me chacoalharam. Tão habituada e íntima dos cuidados com minha pequena que estou, vi-me absorver outra realidade possível. E é estranho pensar isso quando o que me atravessou está mais perto de ser regra do que exceção. É que a realidade da gente é a regra da gente. No convívio com o outro, com o diferente, é que percebemos as inúmeras nuances de cada experiência. E ali, para mim, a diferente era ela. Transitando entre lá e cá, imaginei que deve ser assim, com o espanto que observei essa mãe e sua filha, que outras mães observam a experiência da minha maternidade também.

Não há comparação possível. Seria raso e leviano pressupor que a maternidade experimentada por aquela mulher é mais fácil ou mais leve que a minha, ou que sou uma mãe mais calejada do que ela. Não é nada disso. Somos mães, ambas. Foi a partir desse ponto comum que eu a admirei. Admirei o quanto ela era o bastante para sua filha. Admirei sua suficiência, naquela postura altiva, naquela mochila corajosamente pequena, naqueles braços onde cabia o necessário e transbordava o essencial. De tanto admirá-la, não pude baixar os olhos para a minha experiência. Não pude me ressentir de não ser aquela mãe. Eu sou a mãe que carrega tudo o que a cria precisa fora do corpo, porque ele não é suficiente para ela. Nunca foi. Carrego a bala de oxigênio, a comida, a bebida, o saturímetro, os remédios. Carrego tudo o que preciso for porque sou exatamente como aquela mãe. Eu e ela cuidamos amorosamente de nossas filhas. Eu e ela garantimos o que nossa cria precisa para se desenvolver. Eu e ela experimentamos a maternidade de peito aberto. Nossas experiências tão singulares rimam em afeto e entrega, enquanto solfejamos aos ouvidos de nossas pequenas. Eu e ela somos mães, as possíveis.

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Reencontro

Tem receio que consome a gente. Feito mofo, que se alastra silencioso e vai tomando conta. Eu estava assim, rançosa, na véspera do retorno da Alice à escola. Havia se passado quase um mês de clausura. Uma sucessão de doenças respiratórias obrigou minha pequena a se revezar em consultas, medicamentos, injeções, cuidados, e o convívio escolar foi pausado. Nem pneumonia, nem ameaça de cirurgia para retirada de adenoide, nem suporte para oxigenação. Não foi isso o que me provocou temor nesses dias que se arrastaram sem um diagnóstico conclusivo. De alguma forma, Alice e eu aprendemos a lidar com as inconstâncias de seu corpo, posto que a retomada vem se fazendo certa a cada vez. O que fez o arrepio correr veloz foi uma suposição. Boba. Dessas que nos constrangem quando colocamos o pensamento para quarar… Um raciocínio impregnado de medo, respingado de culpa. Será que os colegas haviam se esquecido da Alice? Será que tinham sentido sua falta? Será que haviam se acomodado com sua ausência? E se não festejassem seu retorno? E se não continuassem a considerá-la nas brincadeiras depois desse afastamento que lhes foi imposto?

Coloquei meus sentimentos em revista. Tive medo de ter guardado algum preconceito no escuro da consciência. Observei demoradamente a face da menina Alice, nenhum sinal de medo. Só a pureza da expectativa. Uma saudade denunciada em sorriso terno quando ouvia: amanhã você volta à escola! Mas eu seguia apreensiva. Constatei que aquele receio não tinha a ver com o fato de Alice ser uma criança com deficiência. Muito antes, residia em minha crença de que a convivência pode ser antídoto para a segregação, para a exclusão. Confirmei que tenho repousado minhas esperanças na certeza de que é no cotidiano que construiremos nosso lugar no mundo – nas descobertas, no diálogo, na preciosa interação com os outros. É ali que nos fazemos e nos refazemos humanos, é ali que vinculamos nossas imperfeições e consolidamos nossos afetos. E como julguei não ter havido tempo suficiente para sedimentar o convívio entre Alice e seus colegas, ergui uma ameaça tola no caminho de volta à escola.

Ainda assim, retornamos, com o coração a galope. Antes que adentrássemos a sala de aula, um grito entusiasmado apressou o passo: Alice! Alice voltou! Gente, Alice voltou! As cenas seguintes registraram minha pequena e os colegas se alternando em olhares, beijos, abraços, carinhos, sorrisos…  Eu acomodei os pensamentos, silenciei. Não, o tempo não se acumulou em quantidade para garantir aquele reencontro amoroso. O que parece ter havido foi uma entrega genuína e compartilhada daquelas crianças – todas elas – na impermanência dos dias. Elas já se conhecem, sabem-se em suas necessidades e virtudes. Parecem exercitar a compreensão sem julgamento. Aprendem, no convívio leve e profundo, a desviar das faltas para acolher saudade e presença, tudo a seu tempo. E, assim, despretensiosamente ensinam-me que, adultos, também podemos ser capazes disto.

alice

Alice, Gabi e Bibi: trio ternura.

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